A chama
Olhos castanhos profundos, cabelo castanho claro perfumado com o seu jeito sempre perfeito, boca pequena, carnuda em forma de coração bem apreciável, corpo escultural com aproximadamente um metro e setenta e cinco com um bronze natural. Os meus olhos tentaram descobrir o vulto ao seu mínimo pormenor, envolveram-se mas era intocável, acabara de desencadear um enorme cultivo de sentimentos. Pela primeira vez o avistei era como um sonho, uma melodia surge como fundo, ouço uma voz tão dócil e terna que parecia frustrada por tanto lutar pelos seus sonhos, mexia com todo o meu eu, era a sua voz que me suava tão docemente entrando pelos meus tímpanos e ecoando na minha cabeça como se mais nada lá permanece-se, criou raízes, fazia-me sentir tão tranquila. Tudo aquilo era tão irreal e intocável, mas naquele momento tudo aquilo me dava vida, conseguia comunicar, apesar de o fazer não sabia se era o mais correcto. Dias com ternas palavras trocadas, mexia comigo, mas não sabia o que ao certo era e por sua vez também era incerto se algum dia se tornaria real. Passaram-se semanas, meses, e eu encontrava-me dependente de a imagem que criei e cultivei do vulto, apesar de para o mesmo não significar mais do que um objecto dispensável á sua vida.
Ate que chega o dia, é a hora, e naquele minuto tudo se torna verdadeiro, beijei-o no seu rosto comprido e bem tratado, carícias trocadas, tudo mexeu tanto comigo… Mas quando me olhou, o olhar dele despia-me fez-me sentir envergonhada e imperfeita, senti como se ele conseguisse me fazer todo o seu querer, era escrava daquele olhar tão imperial que ele tinha. De súbito um calor me abrangeu, uma chama se acende transmitindo-me energia imaginável, tornei-me a pessoa mais feliz d mundo, todos aqueles objectos e vultos á nossa volta desapareceram, naquele momento era só eu e ele. Começo a ouvir a melodia aparece uma corrente de ar que me apaga a chama, e quando dou por mim estou outra vez rodeada de todos aqueles vultos e objectos monótonos, sentia-me incompleta. A partir daquele momento vivi fixada nele, afinal tinha sido tudo tão perfeito, e os defeitos aprendi a lidar com eles. Todavia ele desapareceu, a comunicação deixou de existir, ele apagou-me da sua lista de interesses, tinha o perdido e afinal não sabia a razão. Tive de seguir em frente, tive muitos pretendentes mas traía-os pois desejava-o a cada momento, e não passava uma semana sem recordar a sua imagem, mas o tempo… tudo faz esquecer, ou melhor quase tudo.
A chama tinha se apagado mas a imagem tinha voltado. Sentia um vazio, uma corrente de ar que passava pelo meu corpo fazendo-me sentir nua e desprotegida, como se tivesse acabado de sair ao mundo, sentia-me frágil. Tal era o frio que me abrangia, que tornava o meu coração gelado, os batimentos reduziam, tum, tum, … a pulsação baixava. Perdi-me, sentia-me tonta, olhei á volta e tudo se movia dos sítios normais, tudo se transformava em algo tão diferente e irreal, sentia-me só e perdida num mundo deveras desconhecido. Vagueava no novo mundo á procura do lugar que corrigisse todos os meus erros e que tornasse aquilo num sonho e me fizesse recuar no tempo, corria, estava numa ala sem alternativa, restava-me seguir em frente ou voltar para trás. Estava indecisa, confusa e baralhada, olhava a meu redor e restava-me avançar ou recuar, o meu coração sufocou minha mente paralisou. Senti-me esmagada.
Encontrei-me numa sala, inconsciente, onde ouvia uma pessoa a falar sobre o meu estado, esse alguém falava com certeza para um vulto que me fazia sentir estranha, com sensações esquisitas na barriga:
- O facto de a mesma estar assim deve-se á ausência do abraço, do calor do olhar, das palavras que a fazem desesperar e lutar pelo futuro, ela quer sentir algo mais, quer partir á descoberta da chama que fizesse a reabilitar da tristeza e tornar a alegria real, focou-se em si, tentou atingir o seu auge, conseguiu a chama mas a dor matara-a a cada segundo de dependência por si. - A voz cada vez menos se ouvia, cada vez se tornava tudo mais baço, adormeci…, e quando acordei, a imagem do outro alguém que nunca se pronunciara na conversa não saía do meu pensamento, já a conhecia de algum lado, do passado, todavia quem falara com tanta certeza fazia-me confusão, era como uma parte de mim, pois sabia tudo o que se passava, não escapando um mero pormenor, era o meu ego? Bem, talvez jamais saberia, mas o que é certo é que a imagem não me saía da cabeça.
Aquele vulto que me fazia sentir tão diferente era o rapaz dos olhos profundos, pois jamais outra pessoa se não ele me fez sentir assim. Tentei o procurar por toda a parte novamente, mas desta vez encontrei-o passado dias, tudo estava de volta, a chama, mas só me trazia tristeza, mesmo assim dei por mim a lutar por ele como no passado, mas ainda mais ingénua, deixava que me tratasses como uma boneca, agradecia-me com desprezo e eu ficava sempre toda contente á espera que me voltasse a dizer algo. Lutei contra o sufoco, tanta dor, tanto sofrimento, morri por dentro. Isolei-me para que conseguisse viver no gelo, passei dias á procura da descoberta da solução que me devolvesse a vida, achei-a, existia só uma, esquece-lo, não estava certa do que queria mas, estava tão débil que fui obrigada a segui-la. Tentei esquece-lo e apagar todos aqueles momentos que me fizeram arrepiar e sentir um calafrio que me dava calor. Passaram-se semanas o sufoco era menor mas a ausência permanecia, contudo mera atitude dele me podia desencadear novas esperanças. O meu coração só bombeava sangue, deixei de sentir a alegria e a fonte de energia inesgotável que me fizes-te sentir por segundos que já não sentia a mais de dois anos. “Vou-te esquecer tentar te apagar e acabar com este sufoco que me tira a vida. Será que este calor voltarei a sentir? Não sei e o destino não me diz.” Dizia esta mesma frase todos os dias para mim própria
Certo dia encontrava-me num recinto cheio de gente, ouvi a melodia do passado, nunca suara tão forte ao meu ouvido. Quando acabou dou como tudo a recuar a trás, olho para o meu lado, lá está ele, ouço os batimentos do meu coração os meus ouvidos concentram-se só nele, os olhos fixam-se na sua imagem, a ansiedade é enorme transpiro das mãos, até que caio em mim, não podia estar outra vez fixada nele tinha de continuar o meu objectivo, esquece-lo, naquela noite baseei-me somente em tentar ser agressiva com ele, o mesmo passou toda a noite a abraçar-me e a mandar-me bocas, que eu tentava responder, tentei ser o pólo oposto. Ao fim da noite olho em volta, só os nossos olhos se tocavam nada mais a vota se fazia sentir, suava em meus ouvidos um pedido para que ficasse, meu coração parou, senti todas as minhas forças a comprimirem-se e devaneei para mim “quero lhe tocar nos lábios quero que eu e ele nos tornemos um só, quero que o meu corpo se envolva no dele, meus dedos passem pela sua pele suave, acariciando-o, fazendo-o sentir que é o que eu quero para minha felicidade, eu só quero um beijo, mas diferente para que me torne inesquecível”, ai estava eu a deseja-lo apesar de tudo o que ele me fez. Ouvi as expresses dele e tentei ficar, mas não dava, ouvi ao fundo da rua vozes que me chamavam, pedi imensas desculpas e fui me embora mas ainda hoje me ficou na cabeça ele a dizer “para a próxima irei eu ter contigo”, essa frase permaneceu na minha cabeça toda a noite, a manha seguinte, e consecutivamente. Mais que nunca estava a gostar dele e era incapaz de o esquecer, tentava o evitar, mas meu corpo necessitava dele para manter a chama aberta, a chama que ele consegue acender e apagar quando lhe apetecia.
Fui a seu encontro, mas todavia tinha me cabido a mim ir ter com a imagem, procura-la, nesse dia me esperavam momentos maravilhosos, abraços, beijinhos, conversas, palavras queridas, era só eu que lhe interessava, senti-me uma menina bem pequena a receber o carinho que lhe dão, aquele carinho que nunca estive, nessa noite o sentimento foi muito mais forte, senti-me nas nuvens, pulava, sorria, cantava, os abraços dele são algo incontável, nessa noite ele despertou-me o amor, sim e esse mesmo o sentimento, talvez já o tivesse sentido, mas escondia-o com vergonha, afinal já não sabia o que era estar apegada a alguém, estava habituada que se apegassem em mim mas agora tudo se voltara ao contrario. Foi uma das melhores noites da minha vida, o calor dele junto ao meu, o seu perfume, o seu toque, … indescritível, mas como isto não é nenhuma novela, nada acaba assim.
Contudo no dia seguinte, estava completamente diferente, ignorou desprezou-me, sentiu-me na mão e deitou-me fora, jamais me senti assim, chorei, senti ódio por mim, devido ao facto de ter caído no mesmo erro e por ele, por não dar valor pelo que eu lutei por ele, e ainda falar com um gozo de mim, mesmo demonstrando desprezo, ou seja, “quando está só procura-me para se sentir acarinhado, quando tem as outras lixasse para mim, eu pergunto a mim mesma porque não me importo por ser apenas mais uma e se isto é gostar de alguém prefiro sentir o vazio do que a dor, prefiro me isolar, prefiro me lixar para os outros, e não descobrir de que se trata o amor, sim pois agora comparando tudo o que senti por ele pelo que senti pelos outros não existe comparação possível, nunca senti nada tão forte, eu ignoro o que sinto por ele, mas quando ouço sequer falar no nome dele os meus lhos brilham e o meu coração bate mais alto. Odeio estar assim preferia não sentir nada disto, afinal para que lutar por alguém que jamais no deu valor?”, todo o dia de frustração, senti-me outra vez perdida numa ala, revivi tudo como da primeira vez. Agora tudo já me era mais claro, mas sufoquei de novo, por tentar lutar por tantos obstáculos para o esquecer, e desmaiei.
Acordei, desta vez deparo-me com alguém igual a mim chamando-me e preocupada com o meu estado, sinto-me muito tonta, sobre pressão, ouço tudo tão alto, reparo no mais minúsculo pormenor, esse alguém troca-me uma toalha molhada que tenho por cima da cabeça, sentia-me a arder, mas calafrios atravessavam o meu corpo como laminas que me cortavam e me faziam sentir ainda mais fraca. Tossi, levantei a cabeça, e o vulto perguntou-me se me sentia melhor, e eu tentando me livrar daquele espaço o mais rápido possível perguntei como se saía dali e disse que me sentia melhor (o que de facto não era verídico mas toda aquela situação me deixava assombrada), o vulto só me disse “ tens duas portas, a mais trabalhada irá te levar a tentar conquistar esse teu homem da imagem inapagável que tens na tua imagem, irás sofrer muito, e quase de certo irás derramar lágrimas inevitáveis, mas todavia poderás atingir a tua felicidade, poderás sentir o amor e vive-lo a cada segundo, contudo terás de trabalhar muito nele e pode ser mesmo incansável. Por outro lado tens aquela porta simples, onde irás esquecer, ou tentar esquecer tudo o que sentes pelo mesmo, mas ai poderás nunca mais sentir essa chama que te acendeu e deu tanta energia, terás de aprender a viver com a amizade, nessa porta não te magoarás mas irás sentir o frio e o vazio que por vezes já se instalaram no teu coração.”. Estava tonta e farta de toda está situação, ainda a ver tudo baço, não pensei, e não evitei, passei uma porta. Desmaiei, acordei e ao acordar estou na minha cama, não sei se tudo aquilo não passou de um sonho, mas uma opção escolhi, não sei qual é mas o futuro aguardava-me com novas surpresas.
Adoro-te :'(